29 de Maio de 2011

 

 

Boa tarde,

Chamo-me Álvaro, tenho 50 anos, sou professor universitário; nunca fui activista nem pertenci a qualquer movimento ou partido político. Intervim nesta assembleia há uma semana, tenho acompanhado os trabalhos mas o meu estado de espírito é hoje bastante diferente.

Estive solidário com este movimento de cidadania que espontânea e pacificamente ocupou o Rossio para exigir a renovação da nossa democracia: uma democracia verdadeira, já! Quero desde já deixar aqui uma saudação muito especial aos ‘acampados’ que foram a força de resistência deste movimento, pois sem eles esta ocupação do Rossio e estas Assembleias não seriam possíveis!

Continuo solidário com o movimento internacional que foi iniciado pelos nossos irmãos ibéricos em Madrid – Acampada da Puerta del Sol – e que ainda se mantém nessa e outras cidades espanholas e europeias.

Estive aqui porque partilho com muitos de vós a tomada de consciência do rumo absurdo e profundamente injusto a que nossa sociedade foi conduzida por uma minoria gananciosa e criminosa que adulterou a democracia e nos impõe um modelo de desenvolvimento baseado no crescimento económico insustentável e no consumo irracional.

Estive aqui porque achei que era necessário fazer convergir muito mais cidadãos conscientes e de todas as condições e idades, que partilhassem estas ansiedades e convicções e que tivessem ideias para contribuir para a renovação da sociedade. A convergência é fundamental para esta construção porque nenhum de nós tem o livro de instruções. União e diversidade é o que precisamos.

Há um provérbio africano que diz: “Se quiserem ir depressa vão sozinhos, mas se quiserem ir longe vão juntos!”

Constato agora que o movimento iniciado aqui no Rossio não teve claramente a dinâmica que todos desejávamos e é altura de fazer a necessária reflexão. A minha reflexão é de que estas assembleias, que sempre foram o momento que congregou mais pessoas aqui no Rossio, tornaram-se em comícios dominados pelos mesmos intervenientes que, com a pressa de imporem as suas agendas e os seus discursos panfletários, se esqueceram do principal objectivo desta acampada, que era trazer aqui a pluralidade de visões indispensável à procura de soluções para a situação complexa em que nos encontramos. Faltou a estes companheiros o discernimento para entender a potencialidade do que aqui se estava a construir, como foi aqui dito pelo prof. Boaventura Sousa Santos na 6ª-feira.*

Recordo o que eu próprio disse aqui há uma semana atrás: que o medo, a desunião e a resignação seriam a nossa derrota!

Apelo pois a todos os que acreditam que só uma tomada de consciência colectiva e internacional nos pode ajudar a reencontrar o caminho de reconstrução e renovação que continuem a lutar e a procurar as plataformas de convergência e de união para levar essa luta a bom porto.

 

Custa-me muito ter que vos dizer isto mas, para mim, o Rossio já deixou de ser esse sítio!

 

(Texto lido a 29 de Maio na Assembleia Popular do Rossio)

 

Epílogo

 

Esperemos que os nossos irmãos ibéricos tenham a perspicácia para não cair no mesmo erro e a perseverança para levar este movimento inédito de renovação da democracia até às últimas consequências. Que o vento islandês continue a inspirá-los!**

A tomada de consciência está nos corações de muitos de nós e tem de sair à rua pelo futuro de todos!

O Rossio poderá voltar a ser nosso!

 

 

* http://www.youtube.com/watch?v=OSLsaXb9U1Y

** http://www.presseurop.eu/pt/content/article/664011-um-vento-islandes-na-primavera-espanhola

 

publicado por transicao_ou_disrupcao às 23:51

Filipe Feio:
O "Rossio" esteve, está, e estará sempre dentro de alguns de nós. Abraço...
3 de Junho de 2011 às 11:44

N:
"tornaram-se em comícios dominados pelos mesmos intervenientes que, com a pressa de imporem as suas agendas e os seus discursos panfletários, se esqueceram do principal objectivo desta acampada, que era trazer aqui a pluralidade de visões indispensável à procura de soluções para a situação complexa em que nos encontramos"

Concordo. E muito tenho lutado para que isso não aconteça. Uma luta feita de participação, não de alheamento. A situação no Rossio é diferente da situação em Madrid. O grande movimento da sociedade civil que abafaria as palavras dos discursos panfletários que mencionas nunca se gerou. Porque a sociedade está apática, porque o desemprego não é tãop elevado, e porque o movimento surgiu num contexto eleitoral aguerrido, em que dois blocos se enfrentam, e onde é difícil distinguir além do branco e do preto. Iniciar um movimento neste tipo de contexto é particularmente difícil, mas é possível. Se não desistirmos dele.

Amanhã há Assembleia Popular. Podes ficar em casa ou podes ir até ao Rossio. Sugiro-te que vás. Se agarrares no megafone e falares haverá menos um desses discursos panfletários que criticas...e ajudarás a construir o movimento...Pensavas que ele já vinha construido à medida de origem? Não álvaro, tal como a democracia, será o que fizermos dele...
3 de Junho de 2011 às 13:51

lijealso:
Ainda assim, acho que a melhor solução seria transportar o "verdadeiro Rossio" para outro local
3 de Junho de 2011 às 20:15

Estás aqui em vídeo:
http://www.youtube.com/watch?v=xRDrI_mQeJA&feature=player_detailpage#t=639s

Abraço,
Luís Galrão
3 de Junho de 2011 às 19:04

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